Estudio Dezenove
Vitrine Efêmera

Celina Almeida Neves | Sitiação | Setembro de 2016

SITIAÇÕES

Cada vitrine efêmera costuma ser um acerto de contas entre os espaços, os objetos, as recepções... e, portanto, uma provocação estética que obriga a acertar os ponteiros conceituais, perceptivos das propostas, sempre na direção pública que o trânsito da rua dilata, amplia como última instância; ainda mais quando coincidem registros artísticos diferentes que dialogam, pontos convergentes para uma equação não unívoca.

Assim, Celina Almeida Neves propõe uma aventura a quatro bandas cujo maior desafio de equilíbrio é respirar seu lado prismático, os vários territórios desdobrados como nomenclatura da obra: maquete, instalação, site specific, poema visual... Não em vão, o título escolhido pela artista é uma alquimia de sítio e ação, um neologismo que re-nomeia as coordenadas espaço temporais (sítio, ação, situação, sitiação), sua dialética de imagem pulsante, viva, a favor de outro imaginário mais livre. A integração do signo icônico do homem kafkiano que somos e sua linha de fuga com o espaço da vitrine é outro lugar expandido, que articula e dá forma ao território que rodeia o signo.

3 resulta em parte num trabalho pós-minimalista, pela configuração espacial criada pela iluminação, ainda que as diversas luzes convocadas e contaminadas de mundo subvertam esta condição - além da própria luz da vitrine, soma-se à luz da rua refletida luminicamente e do objeto luminoso nela inserido. Por outro lado, trata-se de uma obra site specific que joga com a escala do espaço - a vitrine ecoada em 20%, 15% e 10% de seu tamanho, como caixas-maquetes em estado de ressonância -, uma peça escultórica de pequeno formato cuja iconografia matriz gera outro código de comunicação poética.

O homem saído da comunicação visual, da simbólica rota de fuga (exit) tem se convertido aqui num emancipado poema gráfico, genuinamente visual, incluso de historicidade dramática, deixando longe a assexuada simbologia de uso convencional. O homem que foge correndo do perigo das circunstâncias, também é, precisamente, uma paráfrase de São Sebastião de coração flechado. Outra placa que relata o cerco, o sítio de nossa situação funcional, outra situação-sitiação.

Sitiação (0+1) fala, em consequência, de um espaço interno e de outro externo, ao mesmo tempo, reverberando duas cosmologias em conexão, em aproximação alegórica, que acabam rebatendo não só no universo cotidiano, diário, em nosso trânsito e passagem, quanto nas questões atávicas da condição humana quando ela se digna perguntar simbolicamente pelo seu lugar e a razão de seu movimento. À procura de certa incandescência - tão vinculada à luz lírica, especular - de Sitiação (0+1) encontra-se todavia nesse homem ícone - em sua metáforica escala - que foge de certa topologia ambiental cristalizada, do perigo ameaçador, declarado pelo mundo mais pacificado em seus sinais, e também foge de si mesmo, enclausurado em suas pequenas janelas.

Adolfo Montejo Navas