Estudio Dezenove
Vitrine Efêmera

Elida Tessler | Evaporações | Novembro de 2026

VOLANTE PARA UMA PARTITURA (EVAPORAÇÕES) 3010cc

Há alguma coisa mais efêmera que um perfume? Que a sua figura registrada no ar em forma de essência? E se pode escrever uma gramática bio-gráfica com cheiros (tridimensional), em troca daquela página em branco sonhada por Mallarmé, que deslocava o que poderia ser o poema? Com Evaporações, Elida Tessler instala uma situação que é uma partitura espacial, não só imagética e verbal quanto sinestésica. As figuras/figurantes (frascos/recipientes) estabelecem assim uma certa dramaturgia à vista, um palco a contemplar como uma obra, uma ópera de perfumes (em trânsito visual de rua); a imagem e semelhança de sua natureza entre o ar e o tempo, como é nosso corpo habitando a medida quase impalpável de um cheiro. Evaporações fala desse gesto, dessa ação/emanação, e desse movimento inscrito em seu transcurso de vida (até da coincidência das coisas, quando o local da ação, a Vitrine Efêmera se inaugura na mesma rua onde nasceu a artista!). Com seu acento colocado no sentido do olfato, sendo o menos considerado ou ilustrado dentro das artes plásticas (e sirvam exceções de Lygia Pape ou Cildo Meireles, por exemplo), isto equivale a dizer então ser o mais difícil. Talvez porque ele se escape como a música. Como uma obra-arquivo cuja nascente e composição traduz uma leitura existencial, Evaporações (também na ordem do feminino originário) se significa, com total propriedade, em uma Vitrine Efêmera como projeto que foge da visibilidade comercial de rua para ser o abrigo espacial para um acontecimento visual, no qual perto de 280 frascos de perfumes se falam através de seus vidros, formas, legendas, cheiro e luz. E onde os nomes se sucedem sem interrupção, em suas próprias línguas vernáculas desenhando um hipertexto cromático transparente para a memória. Como acontece com Broodthaers, aqui se defende a oportunidade de as palavras criarem espaços, de que o textual e o plástico coincidam. Porque o cerne deste repertório objetual aponta a que os signos das marcas sejam ainda os significantes livres, e a representação seja uma afinidade eletiva, funcione além da banalidade publicitária, comunicacional. Na configuração visível do espaço material que representa a Vitrine, se produz um elo, uma correspondência entre os signos e as formas, mas o preço desta mimese é fundar uma troca de status entre os cheiros e seus suportes. Daí a necessidade da dramaturgia, da Vitrine: por isso, a inversão: os frascos de perfumes nos olham. “Que as palavras se façam formas e que as formas se façam atos, isso quer dizer também que a vida não se separa mais nem de um idealismo artístico, nem de um idealismo político” (conforme assinala Jacques Rancière). Com efeito, a pauta escrita por esta coleção de “ampulhetas” de Elida Tessler, o teor de sua construção está fora da mera sedução ou do simples antídoto (de uma vida artística que eximiria da vida não artística), porque visa outra coisa menos simplesmente dialética: reestabelecer outro vaso comunicante nosso mais interno, uma pregnância mais próxima.

Adolfo Montejo Navas [setembro, 2026]