Estudio Dezenove
Vitrine Efêmera

VITRINE PANDÊMICA III | Ligia Teixeira | CARNE CRUA | 12 de março a 16 de abril de 2022Curadoria Sonia Salcedo del Castillo

Carne crua: mátria amada ao avesso

A produção artística de Ligia Teixeira ocorre em diversos meios e gira em torno do universo feminino e seu imaginário no coletivo social. Mas não só. Na medida em que a artista se utiliza de referências históricas da arte, bem como de fatos da história sociopolítica mais recentes, em seu projeto poético, junto a elementos relacionados a sedução e erotismo, rastros oriundos da opressão social se presentificam em suas obras. E, feito navalha na carne, expõem as entranhas do modus operandi da sociedade violenta que, vergonhosamente, construímos sob o espírito da exclusão. As violências sofridas por mulheres exemplificam um aspecto da referida patologia social construída em séculos de história. No caso brasileiro, não há como discordar da afirmativa de Darcy Ribeiro em seu livro O povo brasileiro: “O Brasil é uma máquina de moer gente.” Máquina moedora voraz... capaz de devorar um país, como se fosse um pedaço de carne crua, assim... feito um pernil posto de ponta-cabeça. Sim! Desse jeitinho que nos habituaram a nos expor aos olhos do mundo: tão sórdido quanto sedutor, numa vitrine. Em Carne crua, de Ligia Teixeira, esta é uma metáfora cirúrgica, sobretudo agora, em resultado do doloroso processo pandêmico pelo qual todos nós estamos passando. Nesta obra, de maneira fria e asséptica, jaz um pedaço continental pelo avesso... Tão viril quanto o gancho que o fere é o sangue estancado da mátria amada dependurado. Carne crua, portanto, se apresenta como uma espécie de museália, nesta Vitrine Pandêmica: objeto que se presentifica em memória para predizer. O vídeo Ideologias, também assinado pela artista, acompanha e complementa a ideia contida nesta vitrine. Através da interface entre o filme de Chaplin, O grande ditador, e o objeto Ideologias, de Ligia, analogias e metáforas de jogos lúdicos de tirania e morte expandem a ideia de prazer e dor, ao serem exibidas como sinal de poder e, monumentalmente, relembram-nos para nos garantir o não esquecer.