VITRINE PANDÊMICA VI | Mauro Espíndola - INVITROPTICUS | 20 de Agosto a 24 de Setembro de 2022Curadoria Adolfo Montejo Navas
BIFOCAL, BIESPIRITUAL
“A ausência de um mundo comum está nos enlouquecendo"
Bruno Latour
A vitrine pandêmica de Mauro Espíndola vem a falar de outro vírus, talvez mais arcaico e cultural, aquele referenciado à nossa imperfeita e muitas vezes cruel relação com uma parte significativa da natureza: os animais mais livres, e em consequência, com seu próprio entorno como metáfora. Aliás, vem sendo colocado em pauta, mais ou menos recentemente, outra visão e interpretação do vivo, que responde – ou pretende responder – a um chamado cada vez mais cosmológico que simplesmente biológico ou ecológico. Se trata, portanto, de algo mais na órbita da relação que do domínio, da correspondência que da mera funcionalidade. E neste novo giro, há, portanto, outro destino e outra ilustração do mundo em jogo menos predatória. Onde incluso o protocolo do politicamente correto ainda fica muito mais curto em seu engodo de conveniências pensantes, em seu bem-estar instrumental.
Daí que uma das configurações mais instigantes e paradoxais da poética do artista carioca-riograndense seja, precisamente, uma espécie de arqueologia artística do saber, um trabalho de campo vinculado à entidade e cultura que todavia representam os animais, e por extensão, a biodiversidade de sua genealogia, seu habitat genuíno, e leia-se assim, claramente, fora do recinto doméstico, como se este fosse insuficiente, também uma armadilha consensuada mais para a consciência, para nosso escapismo ou evasão (e que um universo burguês como o dos pet shops não consegue simular). A não esquecer nesta particular e rara vitrine, portanto, como o escapismo de nossa realidade faz parte do mais evidente negacionismo, conforme em dia apontou o pensador francês da epígrafe. Porque nessa direção, nós acrescentaríamos que o negacionismo não só faz parte de um delírio interpretativo quanto sobretudo de uma droga, funciona como um paraíso artificial.
Nessa tal fuga histórica em promoção, a presente Vitrine pandêmica (VI e última da série) estabelece o lugar de uma afronta estética. E de um confronto perceptivo: a paisagem de uma animália explicitada de forma iconográfica, ou seja, sintética e simbolicamente. A adoração imagética que se deriva desta instalação aqui responde a uma profanação real. Com seus termos acusadores no título: Predactorium, Operactus, Insolictus, Delictum. A imagem desenhada de uns tatus em várias formas, taxonomicamente expostos em posturas clássicas de lateral e frontal (sem espírito de açougue ou de caça esportiva, esse outro eufemismo da violência), atende ao caráter que a ciência, como território contíguo e construtivo, tem em um heterônimo de Mauro Espíndola chamado Emanoel Leichter, dono de biografia própria em seu outrar-se. Ciência, diga-se em seguida, vestida aqui de seu lado experimental, ambíguo, e até ficcional, na medida em que os critérios de verossimilitude e verismo sofrem certa erosão, certa suspeita ou dúvida em pós (ou em pró?) de outras considerações mais livres ou abertas. Também não é de agora que o descrédito do positivismo científico – como o da história – atingiu uma altura já cética, melancólica, e sua crise mais sensata se alia com os propósitos atuais da arte, sem recorrer aos primórdios mais vinculantes.
A intervenção de Mauro Espíndola/Emanoel Leichter em si se pluga em duas dimensões de percepção, ou melhor, exige duas aproximações diferentes, e nesse sentido é bifocal: por requerer uma leitura visual e verbal contígua em duas distâncias, pois de perto enxergamos diferente que de longe. Um inequívoco caráter de poesia visual expandida gera-se aqui, pedindo outra leitura dos signos na vitrine (a equação desenho, texto, espaço, olhar). Sabendo já que neste desenho frottage até o próprio papel-carbono vai intermediar seu lado orgânico. Assim como a língua dos dedos chega até a palavra. Sabendo, também, que este documento de trabalho, antes de chegar até aqui, como site specific, passou por vários suportes devido à sua natureza em transe, derivada de uma coleta – o artista como etnógrafo –, de fotografias, desenho e conquista do espaço como o tônus transitivo do projeto. Daí que a sua condição, retomando, seja duplamente bifocal, por estarmos saindo dessa outra falsa dicotomia que possa separar local e global, quando não há hiato possível quando tudo está em perigo, concatenando causas e efeitos. Como outro sentimento do mundo e do tempo, se escutássemos melhor, como uma filosofia da natureza e uma ecologia política são urgentes.
A semântica do trabalho traduz, em linguagem ironicamente científica (em uma corruptela do latim misturado com português arcaico, marca do artista), uma denúncia da barbárie que a cultura comporta. Reconecta-se com o veredito clássico e assustador de Walter Benjamin, que frisava que "todo documento de cultura é também um documento de barbárie". E não é preciso salientar o exemplo no Brasil atual, o ululante recuo histórico e humanista provocado por uma política hedionda e perversa a todos os efeitos, menos para alguns interesses minoritários que pugnam sempre por seu disfarce e conveniência. Na razão desta coexistência apontada antes, entendida como fricção, um vetor do trabalho de Mauro Espíndola/Emanoel Leichter atende à lógica de outro sentido mais humanista e sensível – uma antropologia artística em curso; daí que sua obra possa funcionar como antídoto visual, aviso, vacina, cura.
Adolfo Montejo Navas [julho, 2022]
