Ronald Polito | VIRE-SE | Curadoria Adolfo Montejo Navas | 2 a 30 de Outubro de 2021
Rondó crítico O poema gira, roda, é de ação, tem sua própria dinâmica de leitura, como pedia Wlademir Dias Pino em cada obra. Funciona conosco. E veio para subverter, subverter-se em sua simplicidade oriental, minimalista: uma palavra, um verbo a ser conjugado, projetando-se no espaço vazio como um exercício, um contra-anúncio, virando-se do avesso, em sintonia com nossa condição submersa, invertida, paradoxal: Vire-se. Com a ironia manifesta ao contrário, canto de resistência. E resistir a quê? A um infortúnio histórico? Só? Ou pior, a uma mutação antropológica, como temia Pasolini? Com certeza, o perigo maior que o poeta e cineasta italiano enxergou em tempo, já nos últimos anos de sua vida, foi a manifestação de um novo fascismo incorporado, no qual a panaceia tecnológica, como trama do poder, e a nova sociedade do bem- estar eletrônico, diríamos, ainda estavam desenhando-se, sem imaginar o estágio narcotizante a que chegaria, a idolatria qual bezerro de ouro atual. As consequências da banalização existencial estão à vista quanto ao feitiço da ignorância. O poema visual ampliado de Ronald Polito fala disso, da ampla servidão, voluntária (profecia sempre atual de La Boétie), e de como não existe fora da linguagem. O dentro e o fora vivem juntos na poesia, na arte, no pensamento. Todo combate é duplo, fenomenologicamente falando. Os signos se ressuscitam, ou o regime de thánatos vence. Na política reificada, ou o que é chamado como tal pelos profissionais de gravata, deveria acontecer o mesmo. Daí que esta econômica e sutil textualidade visual se potencie, além de seu foro primigênio, de seu ponto de partida inicial. Seu raio de ação supera as oito palavras. Não em vão, esta intervenção inaugura a Vitrine pandêmica, é sua primeira edição, e como declaração de princípios em curso coincide com a história de nossos dias, com passeata cívica nas ruas contra a barbárie disfarçada de logística, de poder (perverso em sua contrassenha). O lema, no fundo, é o mesmo, em convergência, quando o poema visual já saiu da página e amplia sua onda. A nostalgia da vida continua sendo maior – aparição mais que autoridade –, nosso lado oximórico, profano de nos virar, resistir/ritsiser.
AMNavas, setembro de 2021
